Fundação Museu Nacional Ferroviário - Armando Ginestal Machado

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Os Caminhos-de-Ferro no Romance Social

Amanhã, de Abel Botelho (1901)[1]

 

 

 

 

 

 

 

 

(…)

N’este momento, rasgou aspero o ar o silvo estridente do tramway, que perto passava, na linha de cintura. Tão perto, que demorado rebôou pelo recinto o seu estralido tremulante, o som ferralhado e cheio do seu rapido rodar. – E no mesmo instante o Matheus, como illuminado d’uma idea subita, erguendo de impeto a cabeça e deslaçando os braços:

     – Ah! ahi têem vossês… Ouvem?... Passou agora o tramway, uma das mais prodigiosas e fecundas applicações da inventiva humana. – Os caminhos de ferro rasgaram, galgaram as entranhas da terra per toda a parte; como uma teia de aranha colossal, a sua rêde de aço liga e abarca o mundo. De continente para continente, de paiz para paiz, o systema ferro-viario forma actualmente a mais sabia e bem ordenada engrenagem, com uma correpondencia perfeita de horarios, analogias de material e as convenientes especialisações de serviços. Pois essa vastissima organisação, typica como modelo, d’um rigor e d’uma harmonia tão perfeita apezar da sua estensão immensa, do seu dominio internacional, funcciona e exerce-se, – vêde bem! – sobranceira e independente ás chamadas formulas politicas; não obedece a nenhum poder central; não tem parlamentos, nem reis, nem padres, nem fidalgos, nem guarda municipal. Governa-se por si… individualmente nas questões regionaes, collectivamente nos assumptos de universal interesse. E assim tudo vae perfeitamente! Não obstante faltar-lhe a consagrada tutelação do antigo, similhante organismo mantem-se, regula e progride d’um modo admiravel. É espontâneo e é util. O seu mechanismo é completo, porque a sua solidariedade é perfeita!

 


O texto de Abel Botelho publicado no Amanhã – obra-prima da sua Patologia Social – revela dois discursos interessantes dos caminhos-de-ferro, abordados por Mateus, um leader do movimento operário, personagem essencial deste romance redigido, pelo autor, entre Outubro de 1895 e Novembro de 1896. No primeiro relato, a personagem revela um conhecimento objectivo e sistemático sobre o significado internacional dos caminhos-de-ferro, enquanto sistema de transporte, resultante da invenção humana e, no segundo, aplica o exemplo triunfante da ordem económica e social revelada pelos caminhos-de-ferro, como exemplo da nova ordem política defendida para a Humanidade, neste caso concreto, com defesa dos princípios anarquistas, que dominaram os sectores operários da cidade de Lisboa, nos finais do século XIX. Note-se que o tema principal do Amanhã priveligia uma patologia social assente nas faculdades do pensamento, por exacerbação das suas capacidades, determinadas pela extrapolação subjectiva de dados do conhecimento e do paralelismo aparente, extraindo-se as consequências desejadas, embora não existentes nas permissas ou juízos iniciais. Neste caso, a personagem defende uma organização social e política sem Estado, utopia que leva o auditório a defender a emancipação do trabalhador e a destruição do Estado. 

 

Do ponto de vista, do primeiro registo, importa considerar que, Abel Botelho tinha um conceito muito positivo do papel desempenhado pelos caminhos-de-ferro na história da civilização contemporânea, porventura adquirido no decurso da sua formação militar e actividade artística, literária e de defesa do património arquitectónico de Portugal.

Jorge Custódio


 

 

  

Abel Acácio de Almeida Botelho(1856-1917) era natural de Tabuaço. Foi Oficial do Estado-Maior do Exército Português. Depois de frequentar o Colégio Militar (1867-1872), fez o Curso de Estado Maior na Escola do Exército (1876-1878). Aderiu ao movimento republicano, exercendo funções como deputado e senador, depois do 5 de Outubro de 1910. A nível militar atingiu a graduação de general e exerceu o cargo de Chefe da 1.ª Divisão do Exército. Foi chamada para Ministro plenipotenciário de Portugal na República Argentina, onde, aliás, veio a morrer a 24 de Abril de 1917.

 

Dedicou-se à vida literária, desde que publicou o primeiro poema na Revista Literária do Porto, ainda na década de 70. Iniciou-se na poesia, com a publicação de Lira Insubmissa (1885). Publicou obras integradas na escola realista (segundo António José Saraiva), entre as quais o ciclo da «Patologia Social», das quais fazem parte: O Barão de Lavos (1891), O Livro de Alda (1898), Amanhã (1901), Fatal Dilema (1907), Próspero Fortuna (1910). Escreveu ainda Mulheres da Beira (1898), Sem Remédio (1900),Os Lázaros (1904) e Amor Crioulo (obra póstuma).

 

Pertenceu desde 1881, ao Grupo do Leão, agremiação espontânea de pintores e artistas exteriores à Academia de Belas Artes da cidade de Lisboa, que partilhavam entre si uma enorme irreverência contra os poderes constituídos, lutavam pela educação artística e defendiam os seus interesses de classe.

 

Foi presidente do Júri para o concurso do Busto da República, organizado pela Câmara Municipal de Lisboa (1911).

Com a 1.ª República, foi Inspector da Academia de Belas Artes de Lisboa e, depois da publicação do decreto de 26 de Maio de 1911, da Reorganização dos Serviços Artísticos, foi o primeiro presidente do Conselho de Arte e Arqueologia da 1.ª Circunscrição Artística de Portugal, com sede em Lisboa. Contribuiu para a classificação dos monumentos nacionais, entre 1897 e 1913, dado que pertenceu às comissões e conselhos dos monumentos nacionais.

 

Este textos e outros que o autor inseriu em duas outras obras da «Patologia Social» – O Barão de Lavos e Próspero Fortuna – tinham sido já reunidos por Frederico de Quadros Abragão, na sua compilação intitulada Cem Anos de Caminho de Ferro na Literatura Portuguesa, Edição do Centenário, Lisboa: Companhia dos Caminhos de Ferro, 1956 (pp. 178-183)[2]. Em relação a esta última publicação, edita-se o texto não truncado, para se poder ver os dois lados do conhecimento dos caminhos-de-ferro desenvolvidos pelo autor no referido romance e publica-se na grafia original da época, antes do acordo ortográfico de 1912.

 

 



[1]BOTELHO, Abel, Amanhã, Porto: Livraria Chardron de Lello & Irmão, editores, 1901, pp.

 

[2]No Barão de Lavos, o autor apresenta uma cena de partida de um comboio de uma gare. No Próspero Fortuna, retrata livremente a inauguração do troço de caminho-de-ferro da Linha do Douro, entre Caíde e a Régua. Ainda em Amanhã, refere o portão e o lugar daQuinta da Inauguração do Caminho de Ferro, na zona Oriental de Lisboa (p. 40) e uma cena da chegada de dois socialistas, um belga e outro italiano, ao apeadeiro de Braço de Prata (pp. 359-360).



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