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Fundação Museu Nacional Ferroviário - Armando Ginestal Machado




Cartão de Cliente
O Caminho de Ferro e o Cinema

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS CAMINHOS DE FERRO E AS ARTES: «Gente de Via» na cinematografia de Cottinelli Telmo

 

Houve um tempo em que os ferroviários iam ao cinema. Não com as suas famílias e os amigos, mas integrados na grande família da CP, enquanto grupo social identitário dos caminhos de ferro. A empresa promovia sessões cinematográficas no Jardim-Cinema de Lisboa, no Teatro Cinema do Barreiro, no Teatro Trindade em Lisboa, no Cinema Odeon de Campanhã, no Teatro-Cinema do Casino Peninsular da Figueira da Foz e no Teatro-Cine do Entroncamento. Depois do final da 2.ª Grande Guerra, o cinema instalou-se na sociedade portuguesa, numa grandeza jamais vista até então, provando a popularidade da Sétima Arte. Mas era assim também à escala mundo, como referiu Georges Sadoul: “Dia e noite, dezenas de milhões de homens, de mulheres e de crianças «vão ao cinema». Perante os ecrãs em que as imagens falam e cantam comprimem-se os mais diversos públicos”[1].

 

Os ferroviários não eram exceção, porque nesse tempo a CP via no cinema um instrumento de formação profissional, de cultura ferroviária e de propaganda do seu papel na sociedade e na economia do país. A companhia incentivava não só o visionamento de documentários, mas também a produção e realização de filmes, tanto internamente, como através do apoio a entidades externas. As sessões para que foram convidados os ferroviários em 1948, constam de documentários diversos, muitos dos quais falavam da epopeia e da vida dos ferroviários e dos caminhos de ferro em Portugal[2].

 

Nessas sessões foi apresentado uma obra do Arquitecto Cottinelli Telmo, intitulada “Gente de Via”, filmada em 1947-1948, documentário de grande qualidade da filmografia do autor da “Canção de Lisboa”, o primeiro filme sonoro do cinema português (1930).

 
“Gente de Via”, aborda o quotidiano dos trabalhadores da conservação e do assentamento das linhas férreas na rede ferroviária portuguesa, mostrando-os com as ferramentas de trabalho, a caminho do local de actividade e os diferentes trabalhos de via, em função dos métodos de trabalho (reparações parciais ou revisão metódica), usando os instrumentos na colocação de travessas, no assentamento dos carris, no apertar das porcas, no espalhar do balastro, no apertar dos tirefonds[3], bem como os profissionais da conservação da via, assentadores, auxiliares, guarda de linha, chefe de distrito e chefe de lanço.

 

Cottinelli Telmo primou pela qualidade da fotografia e das diferentes sequências, realizando uma obra de grande valor artístico e estético em toda a rodagem, não fosse ele um excelente cineasta. Conhecedor a fundo dos problemas da ferrovia, enquanto trabalhador e arquiteto da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, dado que era funcionário da Divisão de Via e Obras da CP. A noção do papel dos ferroviários na conservação e manutenção da via, numa altura em que a tração a vapor começava a declinar, pretendeu servir a empresa por via do cinema demonstrando o interesse do documentário cinematográfico na própria formação profissional do pessoal de via, essencial para ensinar, de forma prática, a matéria de conservação da rede ferroviária às novas gerações de trabalhadores, de modo a evitar acidentes e reclamações.

 

A arte cinematográfica é posta ao serviço da empresa e do país, dado que o exemplo daqueles trabalhadores é observado também pelo lado da disciplina no trabalho e do dever – tema fundamental à ideologia do Estado Novo – funcionando simultaneamente como um “franco elogio” de todos os profissionais do sector da Via e Obras[4].

 

A arte cinematográfica foi, neste e noutros dois documentários deste realizador – Máquinas e Maquinistas (1945) e Obras de Arte (1946) -, posta ao serviço do cinema de documentário conferindo-lhe um valor artístico de elevado significado, tanto na filmografia de Cottinelli Telmo, como na afirmação do cinema de documentário português contemporâneo.

Deveu-se ao Engenheiro Branco Cabral, enquanto Secretário-Geral da Companhia, a indigitação de Cottinelli Cabral como realizador daqueles documentários. O primeiro trabalho realizado foi «Máquinas e Maquinistas» e foi rodado em Campolide e contou com os maquinistas da CP, como atores principais, na sua relação com as locomotivas, enquanto máquinas de tração. O filme gravado em suporte da época, montado e sonorizado na Lisboa-Filme, para ser projetado em sete minutos. Os planos privilegiaram a movimentação e manobra das locomotivas a vapor, executada pelos ferroviários, revelando a sua atividade, responsabilidade e esforço na execução das tarefas. O argumento – como ele próprio narrou – foi pensado de modo a interessar o público, introduzindo sequências com alguma graça e relação entre a ação, o trabalho e a vida quotidiana de labuta dos maquinistas. Apresenta ainda alguma informação introduzida de forma natural, para que o público ficasse a saber a quantidade de carvão e água que era necessária para fazer a viagem de Lisboa ao Porto[5]. Nesta obra, o realizador obteve uma galeria de rostos que ilustra, de forma convincente, os obreiros da locomoção, na sua individualidade e personalidade característicos, moldados pelo trabalho de maquinistas. As fotografias conhecidas revelam a qualidade estética alcançada pela arte cinematográfica do realizador, que em 1945, captou a essência do trabalho em Campolide (nomeadamente a lubrificação e a limpeza das máquinas) e o movimento das locomotivas (tendo como actores, as bielas, as cambotas, os estribos e as ferramentas dos maquinistas), conferindo relevância ao trabalho dos ferroviários e um valor social à arte.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legenda: Cottinelli Telmo e o operador e fotógrafo Octávio Bobone durante as filmagens do documentário “Máquinas e Maquinistas”, na Estação de Campolide, em Lisboa. Foto de Sousa Mendes, 1945]


 

 

No tempo da realização dos documentários de Cottinelli, o cinema português afirmava-se a nível nacional. A Canção de Lisboa determinara um novo arranque da produção, assinada por um português e realizada nos Estúdios da Tobis, provando existir uma indústria cinematográfica em Portugal. Entretanto, a Canção da Terra (1938), de Jorge Brum do Canto (1910-1994), um amigo de Cottinelli Telmo, revelou-se um caso de sucesso. Uns anos depois, Brum do Canto, aquando da realização do filme Chaimite – A queda do Império Vátua (1953), tema grato à história nacional em função dos acontecimentos da prisão de Gungunhana e da guerra de África de 1890, coloca em cena a locomotiva da CP – 004, filmando sequências em Sacavém, relativas à fuga de colonos portugueses perseguidos pelos vátuas. Mais uma vez a CP contribui para a afirmação do cinema português, com a cedência de uma locomotiva histórica do seu património ferroviário, hoje integrante da coleção do Museu Nacional Ferroviário.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legenda:Filmagens de uma cena do filme Chaimite de Jorge Brum do Canto. Boletim da CP: 284, 1953.


 

 

Cottinelli Telmo (1897-1948) era um artista por excelência de muitas artes. O seu brio e as qualidades humanas e intelectuais reconhecidas por muitas pessoas do seu tempo, refletiram-se na sociedade portuguesa durante três décadas, entre os anos 20 e o fatídico dia de 19 de setembro de 1948, quanto as ondas do Guincho, em Cascais, lhe retiraram a vida, com apenas 51 anos de idade[6]. Frequentou o Liceu Pedro Nunes e a partir de 1915 a Escola de Belas-Artes de Lisboa onde tirou o Curso de Arquitetura.

 

Como arquiteto deixou uma obra de enorme relevância, essencial para a compreensão da arquitectura modernista em Portugal, tanto como profissional independente[7], como nas fileiras da empresa onde trabalhava, desde 1 de abril de 1923. Ao serviço da CP executou diversos projetos de obras, como a Estação Fluvial da Sul e Sueste, a Estação do Entroncamento, a Estação de Vila Real de Santo António, o Armazém de Víveres do Entroncamento[8], o Sanatório da Covilhã e as Torres de Sinalização do Pinhal Grande e de Campolide. Projetou ainda o Bairro Camões para o Entroncamento e a Colónia de Férias para filhos de ferroviários, na Praia das Maçãs. Aliás, nos caminhos de ferro deixou uma marca essencial a nível da paisagem ferroviária, sendo o artista dos diferentes desenhos das vedações usadas pela Companhia dos Caminhos Ferro Portugueses, barreiras que foram construídas em cimento armado, de modo a delimitar o território administrado pela companhia na rede em exploração, nas estações e apeadeiros.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Legenda: José Ângelo Cottinelli Telmo em 1945. Cliché de fotógrafo não identificado publicada depois da sua morte. Arquitectura, nº 23-24, Maio-Junho, 1948, p. 43.


 

 

 

Nos anais da arte portuguesa, Cottinelli Telmo era um artista polifacetado, dada a sua atividade de pintor, escultor, ator e autor teatral, músico, para além da Sétima Arte e da Arquitectura, enquanto a mais completa das Belas-Artes. A sua obra acompanhou a construção de um Portugal que se pretendia moderno e celebrativo. Deve-se-lhe o Plano de Obras da Cidade Universitária de Coimbra (1943-1948) e vários planos de urbanização, como os destinados à Praça do Império e Zona Marginal de Belém (1941) e à Urbanização do Santuário de Fátima (1943). Cottinelli revelou uma produção ecléctica, aberta ao modernismo, a novas funções ou a outros valores que melhor se adequassem a cada situação. Foi um dos arquitectos mais notáveis da sua geração.


 

 

 

 

 

 

 

 

Legenda: Exposição do Mundo Português. Pavilhão dos Portos e dos Caminhos de Ferro. Alçado do Lado da Avenida do Parque. Esc.: 1:100. Desenho n.º 5. Arquitecto Collinelli Telmo. 3 de Abril de 1940. Arquivo Histórico da CP des. n.º 12016. CNDF/FMNF.


 

 

Foi o maior visionário da Exposição do Mundo Português (1939-1940), por ocasião do duplo centenário, em 1940, sendo nomeado como arquiteto-chefe desta importante mostra da História de Portugal (Passado-Presente-Futuro), uma exposição que deslumbrou um mundo em guerra e que Antoine de Saint- Exupéry descreveu como “…a mais deslumbrante exposição que já houve no Mundo” (Carta a um Refém, 1940). Para este certame Cottinelli Telmo projetou o Pavilhão dos Portos e dos Caminhos de ferro, ao serviço da empresa.

 

Artista, cineasta e arquiteto foi uma das maiores personalidades da história dos caminhos de ferro portugueses, que importa aqui evocar.

 

 

 

Jorge Custódio - Assessor da FMNF

 

 


[1]SADOUL, Georges, As Maravilhas do Cinema, Lisboa: Europa-América, 1959, p. 9.

[2]Nas sessões de dezembro de 1948 foram visionados, entre outros, os seguintes filmes de produção portuguesa e estrangeira: “Canção do Aço”, “Sapadores de Caminhos de Ferro”, “Elo Permanente”, “Reparação de Locomotivas”, “Ponte do Setil”, “Viagem que é preciso fazer”, “Estação Central de Londres”, “Centenário dos Caminhos de Ferro Suíços”, “Material Circulante”, “Como se fabricam automotoras e locomotivas” cf. Boletim da CP, n.ºs 223 e 228, Ano 20.º, janeiro e junho de 1948, pp. 10-12 e 7, respetivamente.

[3]Parafusos de ferro ou aço especiais para fixação dos carris de caminho de ferro, característicos pela firmeza da fixação às travessas de assentamento. Têm uma cabeça hexagonal ou circular que leva as iniciais do nome da empresa responsável pela fixação. O nome é um neologismo de origem francesa que ficou na linguagem comum dos ferroviários deste forma ou com a designação de «tirafundos» ou «tifons». Cf. VIEIRA, Augusto Vieira da Silva, Material das Linhas Férreas Portuguezas, Lisboa, 1898, pp. 4-5.

[4]Cf. “Gente da Via”, Boletim da CP, n.º 224, Ano 20.º, Janeiro e Fevereiro de 1948, pp. 8-9.

[5]TELMO, Cottinelli, “Documentários cinematográficos ferroviários”, Boletim da CP, Ano 17.º, n.º 198, Dezembro de 1945, pp. 226-232. Dos três documentários de Cottinelli Telmo, só Gente de Via se encontra na Cinemateca Portuguesa.

[6]Cf. “Arquitecto Cottinelli Telmo”, Boletim da CP, Ano 20.º, n.º 232, Outubro de 1948, pp. 12-14.

[7]Entre as obras mais notáveis da arquitectura industrial deste arquitecto saliente-se o Edifício da Standard Eléctrica e a Fábrica Barros, em Lisboa.

[8]Este último edifício é um dos pólos do Museu Nacional Ferroviário, cujo projecto de obra data de 1937-1940.



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