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Fundação Museu Nacional Ferroviário - Armando Ginestal Machado




Cartão de Cliente
Os Caminhos de Ferro na Fotografia

As Artes e o Caminho de Ferro

Fotografia da Estação principal de Santa Apolónia

 

 

 

 

 

 

 

Entre 1824 e 1840, a fotografia inventou-se e impôs-se a nível nacional e internacional como uma novidade da nova era tecnológica, devido a aquisições técnicas de Joseph-Nicéphore Niepce (1765-1833) e Daguerre. A fotografia tal como o caminho de ferro, foi uma das maiores invenções à escala universal, sofrendo profundas transformações longo de todo o século XIX. A ambição da fotografia era substituir o desenho e transformar-se numa arte alternativa, mais fiável do que a pintura na sua versão académica. Nos primeiros tempos, no entanto, a divulgação da fotografia em revista e na imprensa periódica fez-se por via do desenho, em especial através da impressão litográfica . Em Portugal, a fotografia transformou-se num acontecimento social e comercial da época, surgindo por todo o país, inúmeras ateliês e casas fotográficas, que, por via de diferentes técnicas se procedia ao registo das individualidades, das pessoas dos campos e das aldeias e à observação da natureza para fixar no cliché, paisagens, monumentos, tradições e novidades técnicas e obras públicas ou ainda por via dos museus, do comércio e da indústria para fixar colecções de objectos, aspectos fabris e produtos. Dado o carácter da «câmara clara» (Roland Barthes, a fotografia implicou o registo de imagens, consideradas momentos únicos, irrepetíveis. Eram películas cheias de actualidade, inerentes a cada momento fixado pela câmara do fotógrafo, fenómeno tornado repetível desde que as imagens únicas se apresentassem a cada um dos observadores, num outro espaço e tempo. As suas vantagens estéticas foram reconhecidas deste a sua descoberta, mas com o tempo também outras funções como a científica e a de reportagem de eventos, ao serviço da comunicação social. A fotografia ganhou audiência pela particularidade fixar tudo e todos, como se fossem acontecimentos, factos banais ou notáveis e serve, por isso mesmo, apresentando-se ao consumidor, como algo descartável ou simplesmente singular, que se conserva e reproduz.

 

O estudo das primeiras imagens fotográficas dos caminhos de ferro portugueses é por essa razão uma área aliciante, pela forma como os temas ferroviários começaram a preocupar os fotógrafos amadores ou profissionais da época, como um Francesco Rocchini (1820-1893 ?), um A.S. Fonseca, um Fritz, um Emílio Biel, um João Lino de Carvalho (1856-1926). Por ventura estes fotógrafos foram, entre outros mestres amadores ou profissionais da arte fotográfica, os pioneiros da fixação dos primeiros monumentos dos caminhos-de-ferro (estações e obras de arte) e primeiras imagens da circulação ferroviária (locomotivas, carruagens, comboios, chegadas, partidas, descarrilamentos). A tal ponto que a arte fotográfica se transformou num processo de registo sistemático da construção de uma linha ferroviária, como aconteceu com a do Douro, pela mão de Emílio Biel, ou da Beira Alta, pelo fotógrafo francês que registou a inauguração da obra máxima de E. Bartissol. Se o interesse artístico foi relegado para um segundo plano, por motivo da reportagem sobre os principais acontecimentos vividos pela sociedade ferroviária oitocentista, este interesse voltou a manifestar-se, entre 1920 e 1960, quer por via de fotógrafos independentes, quer pela promoção de concursos de fotografia, promovidos pela Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses (como aconteceu em 1956, por altura do centenário).


Elegemos para a esta Secção da Newsletter da FMNF, a fotografia denominada «Estação Principal dos Caminhos de Ferro do Norte. Vista do lado do Tejo», vulgarmente conhecida por Estação de Santa Apolónia. Importa averiguar, quem foi o fotógrafo que a registou? Qual a data provável da sua publicação? Que significado tem a sua actualização como veículo do conhecimento e da arte fotográfica?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Colecção particular


 

 

 A fotografia - positivo - encontra-se colada num cartão original com 27,7 x 21,9 cm. A imagem tem 11,7 x 9,7 cm encontra centrada numa área impressa sobre o referido suporte, assumindo a função de um passepartout. Por baixo indica-se o nome do fotógrafo: A. S. Fonseca, Phot. / 62, Largo de S. João da Praça. Em último o nome da foto, título e subtítulo.

 

Este António S. Fonseca é um dos pioneiros da fotografia em Portugal. Conhecem-se as duas fotografias da Estação de Santa Apolónia, uma das quais é a Gare de Ferro, cobertura em estrutura de arquitectura do ferro que protegia as quatro principais linhas de via larga da Estação, onde se encontram estacionados carruagens de 1.ª, 2.ª e 3.ª classes, uma das quais aberta¹.

 

Quanto à fotografia agora publicada no seu suporte original revela a fachada sul da Estação, assente sobre uma infra-estrutura de pedra aparelhada que serve de paredão ou cais fluvial, dado que as margens do rio Tejo se estendem até à estação, por este lado, construção uniformizada pelos trabalhos de terraplanagem da Estação, entre 1860 e 1865², data da sua inauguração e do aterro da Praia dos Algarves. O fotógrafo colocou a sua máquina fotográfica num molhe transversal ao paredão inferior da Estação, de modo a captar a panorâmica do lado sul em toda a sua dimensão longitudinal, revelando a imponência da Estação e assumindo-a como um monumento da modernidade ferroviária portuguesa. A partir desse ponto do cliché, apanhou a estrutura em U sua arquitectura ferroviária, com as duas alas, ligadas pela esbelta gare metálica. Deste ponto de vista detectou sete a oito carruagens visíveis de um comboio da Linha do Norte, localizado na Linha 1 ou 2 da referida Estação Principal³. O enquadramento urbanístico da Estação é dado pela presença de um conjunto de edifícios associados à parte norte do edifício, em vários planos, palacetes notáveis e uma fábrica com sua alta chaminé, localizada para os lados de Santa Clara.

 

António S. Fonseca bateu esta chapa, numa altura em que tinha o seu ateliê fotográfico no Largo de S. João da Praça, n.º 62. Sabe-se que em 2 de Fevereiro de 1868 ele se encontrava estabelecido na Rua do Moinho de Vento, n.º 2, em S. Pedro de Alcântara e nessa morada se manteve até à sua morte, antes de 1894, altura que a sua casa fotográfica alterou a designação para o nome da Viúva Fonseca. Nesse mesmo ano, ou um pouco depois, a viúva encontra-se estabelecida na Calçada do Combro, onde veio a nascer a fotografia Vidal & Fonseca. Do período de 1868, mais precisamente a 5 de Junho, António S. Fonseca noticia que executou duas fotos numa publicação periódica: Bateria do Castelo de S. Jorge e Arsenal da Marinha, visto do lado do Tejo. Sabe-se ainda que em 1867 adquirira, para o seu estabelecimento, novas máquinas inglesas, não se precisando quais 4.

 

Desta forma, dada a cronologia absoluta e relativa respeitante à actividade do fotógrafo, à inauguração da Estação de Santa Apolónia e ao estabelecimento de circulação regular da Linha do Norte (cuja construção foi autorizada a partir de 14 de Setembro de 1859), pelo menos entre Lisboa e o Entroncamento, podemos adiantar que esta foto e a sua congénere da gare, acima referida, foi executada entre 1865 e 1868. Este simples facto faz da fotografia publicada nesta secção da Newsletter uma das mais antigas imagens fotográficas referentes ao caminho de ferro português e à Estação de Santa Apolónia em particular, nove a doze anos depois da inauguração do troço da Linha do Leste, entre Lisboa e o Carregado.

 

A imagem revela um artista de enquadramentos, atento às novidades e à mudança da arquitectura e do urbanismo, para quem o Tejo é um lugar privilegiado de observação, como que a estabelecer um diálogo entre a mudança e a continuidade. A Estação de Santa Apolónia surge como uma obra moderna, mas herdeira das tendências clássicas funcionais da cidade pombalina. A sua imponência nascia da monumentalidade que residia na sua construção ferroviária em Portugal, através da qual se iniciava - ainda que aparentemente ocultada - a afirmação europeia e francesa das construções funcionais da industrialização, por via da gare de ferro, excelência da nova idade da arquitectura funcional. Estes aspectos não passaram despercebidos ao olhar de um dos pioneiros menos conhecidos da fotografia portuguesa da época, um profissional estabelecido em Lisboa.

Jorge Custódio

 

 


 

 

 

1- FOLGADO, Deolinda e CUSTÓDIO, Jorge, Guia do Património Industrial, Lisboa:Horizonte, 1999, p. 39.

2- A construção foi dirigida pelo engenheiro Angel Arribas Ugarte, a quem se deve o risco do edifício em parceria com os engenheiros, J. Evangelista de Abreu e Nicolas Le Crenier. O construtor foi Oppermann. A cobertura metálica deveu-se a James Blair, empresário metalúrgico de Glasgow.

3- Existe uma outra imagem contemporânea, publicada no Archivo Pittoresco, no ano de 1866, tomada de um ponto semelhante ao do fotógrafo António Fonseca, mas relativamente mais perto da fachada este da Estação. Trata-se de uma litografia de Pedroso a partir de desenho de Bernardo Lima. Uma perspectiva semelhante é a do interior da Nave, mas também esta litografia não foi executada a partir de fotografia.

4- Agradeço ao meu amigo Pedro Aboim a disponibilização destes últimos dados.



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